Como é subir no Vulcão Villarica no inverno e descer de esquibunda

               Em 2015 eu fiz um mochilão com muitos destinos, entre eles Pucon. Desde que eu vi que lá ficava o Vulcão Villarica, em que se podia subir até o cume e observar sua cratera ativa, essa virou uma das coisas que eu mais tinha vontade de fazer nessa viagem. Acontece que, chegando no Chile alguns dias antes, vi na televisão que o vulcão estava em erupção. A cidade foi evacuada e os moradores tiveram que deixar suas casas por um tempo. Quando eu cheguei em Pucon a situação já havia se normalizado, mas obviamente o entorno do Villarica estava fechado e eu não poderia fazer a subida. Mesmo assim foi incrível estar lá, conhecer os sinais de emergência e as rotas de fuga e contemplar o vulcão expelindo sua lava. 

 

 

                Em 2018, planejando outra viagem, coloquei Pucon nos meus destinos novamente, dessa vez teria que dar certo. Quando eu ainda estava na Argentina, enfrentando um clima horrível, com chuvas quase todos os dias, comecei a monitorar a previsão do tempo, e os prognósticos para Pucon eram aqueles mesmos, nublado e chuva. Apenas um dia se sobressaia, um pouco mais limpo que os outros, o dia 24 de setembro, que concentrou minhas esperanças.

                Cheguei em Pucon e fui recebida por uma concentração de nuvens que não me permitia nem ver o vulcão. No primeiro lugar que fui perguntar sobre a ascensão me informaram que com aquele clima não se subia. Não desisti e fui até o escritório da Politur, que eu já tinha pesquisado como uma das empresas confiáveis com seus guias e todo o suporte. Lá eles já acompanhavam uma previsão do tempo bem mais complexa e me garantiram que realmente no dia 24 o clima abriria e eu poderia subir.

                Fechei o passeio com eles no valor de 90 mil pesos chilenos, equivalente a mais ou menos 550 reais. É um preço bem caro, mas se considerando que eles são responsáveis por você em uma atividade com risco de vida eu achei bem justo. Os preços variam um pouco entre as agências, chegando até a uns 75 mil, mas pensando nos riscos e na importância dos equipamentos que usaríamos, escolhi ir com a Politur, pela sua reputação.

                Experimentei todo o traje antes, calça, jaqueta e luvas impermeáveis, balaclava, capacete e botas. Além disso, no dia também usamos uma espécie de perneiras para proteger as canelas, grampões encaixados nas botas, piolet para se apoiar no gelo e máscara de gás para o cume.   

               Minhas expectativas estavam enormes. Mesmo assim tentei descansar bastante. Chegou o grande dia e eu acordei as 5h30 da manhã. Preparei meu lanche, sanduíches, chocolate e muita água. Vesti minha roupa de frio completa e óculos de sol. A roupa da empresa vai por cima e cada um recebe uma mochila para carregar seus equipamentos. Pegamos a van ainda no escuro e fomos contemplando uma linda lua cheia reinando no céu totalmente limpo.

               Chegando à base do vulcão, que também é uma estação de esqui, pegamos um teleférico que já adianta o primeiro trecho de subida. O valor do teleférico foi 12 mil pesos chilenos e ele só estava funcionando por ser época de inverno e a estação estar aberta. Nosso grupo era um guia, um casal de espanhóis e eu. Começamos a subir pela neve bem fofa, o guia ia na frente e eu era a última. Cada passo que dávamos afundava muito na neve e eu tentava pisar sempre nas pegadas que eles já tinham feito.

               Não existia nenhum tipo de caminho, à nossa frente e ao redor tudo era neve. Olhando para cima eu só via um paredão branco que chegava até a cratera do vulcão, que nos íamos desbravando fazendo um percurso em ziguezague. Carregávamos o piolet sempre na mão contrária ao precipício, fincando ele na neve a cada passo para ter uma sustentação.

 

               O começo foi bem tranquilo, a vista era linda, a neve fofa estava uma delícia e todos subiam felizes. Após um tempo paramos para o primeiro descanso, tiramos fotos e comemos. Fazia frio, mas o sol forte e o exercício nos esquentavam. Durante o caminho fomos tirando os agasalhos e o cansaço começou a se manifestar. Por causa da neve alta, tínhamos que levantar muito a perna entre cada passo e isso forçava bastante a coxa e o joelho.

               Já mais perto do cume, começamos a enfrentar uma situação diferente, já não havia tanta neve acumulada e pisávamos direto no gelo duro e escorregadio. Para isso colocamos os grampões, que davam mais firmeza em cada pisada. Nessa parte comecei a ter medo. Já não sentia aquela segurança de andar na neve e pensava que uma queda ali poderia ser fatal. Fui seguindo bem tensa e pensando na volta, super preocupada com a dificuldade que seria descer.

 

 

               Chegamos então bem próximos da cratera e deixamos nossas mochilas na neve para buscar depois. O último trecho era mais inclinado e estava cheio de gente subindo e descendo. Foi a parte mais difícil, ventava muito, fazia um frio extremo e eu sentia que até respirar estava difícil. Meu nariz não parava de escorrer. O medo se misturava à emoção de estar chegando.

               Foram 5 horas de subida e então alcançamos o cume e foi maravilhoso. Chorei e sorri, abracei a equipe e contemplei pela primeira vez na vida a cratera de um vulcão. Pela quantidade de neve caindo lá dentro e evaporando ele soltava muita fumaça, criando um visual incrível. O gás do vulcão é cheio de enxofre, cheira a ovo podre e usamos as máscaras para nos proteger. De lá de cima contemplamos lagos, cadeias montanhosas e outros vulcões. A satisfação de estar no topo era enorme, mas lá em cima o clima não era nada agradável, já estava congelando e ainda tinha toda a descida pela frente.

 

               Fomos andando devagarzinho e com dificuldade pela parte mais inclinada até onde tínhamos deixado as mochilas. Lá o vento já não era tão forte e pude respirar tranquilamente de novo. Vestimos uma proteção de tecido grosso e impermeável na bunda e pegamos um tipo de equipamento de plástico para esquibunda que você senta em cima e te ajuda a deslizar mais. Não acreditei que a gente ia sair escorregando na neve naquela altura e sem nada envolta para nos proteger. Achava que se eu começasse a descer ali não ia parar mais até o chão.

               O guia ia na frente e já criava um caminho mais afundado na neve e nós o seguíamos. Descíamos um trecho curto por vez, até alguma parte menos inclinada. Com o piolet raspando na neve podíamos controlar a direção e diminuir a velocidade, mas depois de tanto esforço e cansaço eu não tive nem habilidade nem força para me manter no caminho certinho e parar quando eu quisesse. Sentia que ia ganhando velocidade, uma nuvem de neve voava na minha cara, já não enxergava mais nada, perdia o controle e algumas vezes saí rolando. Fora o medo era muito divertido.

               Chegamos lá embaixo rapidinho, pegamos o teleférico de novo e voltamos de van. De volta à agência fizemos um brinde e comemoramos a conquista do cume. Me senti completamente realizada e exausta.

               Muita gente não chega ao topo do vulcão. Qualquer pessoa acompanhada de um guia pode fazer a subida, mas o ideal é que tenha um mínimo de condicionamento físico e esteja usando os equipamentos adequados. É importante escolher uma agência boa e ter consciência de que são 5 horas de esforço físico em condições adversas. Para quem tem vontade de fazer a ascensão ao Vulcão Villarica, eu garanto que é uma experiência fantástica e inesquecível.  

 

 

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