Pesadelos de hostel

 

          Eu amo ficar em hostel. Além de super econômico é uma maneira de quem viaja sem companhia não se sentir sozinho. Sempre escolho as opções mais baratas, fico em quarto misto e costumo dizer que nunca tive problemas. Mas nem todas as experiências são maravilhosas e eu já passei sim por situações desagradáveis, nada muito grave.

          O incômodo mais frequente acontece com luz e barulho no meio da noite. Quem está fazendo viagens longas ou tem planos para o dia seguinte precisa dormir e descansar, mas nem sempre nosso sono é respeitado. É claro que em quartos com muita gente, sempre cada um vai dormir uma hora e acordar em horas diferentes, vai ter alguém que ronca ou que chega de madrugada. Isso é normal. Mas muitas vezes falta bom senso. As pessoas chegam no meio da noite conversando, acendem as luzes, fazem muito barulho com as malas. As vezes até o próprio hostel deixa música alta até tarde ou áreas de convivência muito próximas dos quartos. Ficar em quartos compartilhados é saber que seu sono será interrompido, mas se todos tiverem bom senso os incômodos não são tão grandes.

          Uma questão bem mais séria é o assédio. Infelizmente mulheres sozinhas estão sempre vulneráveis a atitudes machistas. Eu fico em quartos mistos que são os mais baratos e costumo achar os caras em geral bem respeitosos. Mas já passei por situações chatas. Uma vez em Quito um moço que estava no meu quarto puxou conversa e começou a me elogiar. Eu não dei muita trela, mas ele não parava. Ficava perguntando se eu não queria arrumar um namorado e porque eu não saía com ele aquela noite. Eu desviava do assunto, só queria ficar ali sossegada, arrumar minhas coisas e dormir. Mas ele foi muito insistente e uma hora eu tive que dar um basta mais enfático. Ele aceitou e foi embora, mas no meio da noite chegou bêbado e vomitou no quarto todo. Eu senti que foi uma espécie de vingança.

          Outra vez em Lima havia um senhor mais velho que puxava papo com todas as garotas. Ele me convidou para passar uns dias na casa dele, fazendo propaganda dos atrativos de sua cidade. Cada vez que me encontrava ele insistia em quanto eu deveria conhecer o lugar que ele morava. Era bem desagradável e eu comecei a evitar os lugares em que ele estava. Uma outra moça ficou bem desconfortável porque ele chamou ela para jantar e como ela negou ele disse que ficaria ali esperando até ela mudar de ideia. Por sorte ele não estava no nosso quarto, mas foi muito chato nós duas termos que ficar lá fugindo dele.

          Eu não me preocupo muito com sujeira, sei que nem todo hostel é super limpo e tudo bem se estiver no limite do aceitável. Mas tem situações que passam dos limites. Em um hostel em El Chaltén, a geladeira estava tão suja que minha comida ficou com cheiro de podre e eu não consegui mais comer. E uma vez em Pucon, um rato ficava correndo entre o forro e o telhado do quarto. Me garantiram que deveria ser um gato, mas no dia seguinte encontraram o rato. Pequenos desconfortos também são comuns, mas algumas coisas me incomodam bastante, como chuveiro sem água quente e falta de papel no banheiro.

          Como faço minhas reservas antes, chego no hostel e tenho meu lugar garantido. Mas nem sempre a organização é tão boa. Em Cusco, eu estava em um hostel e deixei mais uma noite reservada e paga para quando eu voltasse de Machu Picchu. Chegando lá tarde da noite super cansada descobri que não tinha mais vagas. Foi um descaso grande, mas arrumaram um lugar para eu ficar em outro hostel. Quando eu vou sair muito cedo também sempre pergunto se a recepção é 24h ou se as portas ficam abertas. Uma vez uns amigos meus iam sair de madrugada e não tinha ninguém acordado no hostel. Eles deixaram o valor da diária em cima da mesa e tiveram que pular o muro para ir embora.

          Geralmente as pessoas que estão nos hostels são viajantes todos com a mesma intenção e é raro ocorrer algum fato de falta de segurança. Eu costumo guardar meu dinheiro no armário com cadeado, mas deixo minha mala aberta e nunca mexeram em nada. Porém fiquei em um hostel em Buenos Aires onde roubaram minha comida que estava na cozinha. Cada dia sumia uma coisa e conversando com outros hóspedes descobri que eles também foram roubados. E uma vez em Bogotá levei um baita susto. Como não tinha locker eu guardei meu dinheiro dentro da mochila, fechei com cadeado, deixei lá e saí. Quando eu voltei minha mala não estava mais. Comecei a olhar em volta, o lugar era enorme, estava lotado de hóspedes e cheio de bagunça para todo lado. Nesse momento eu pensei que já era, mas uma funcionária brasileira veio me ajudar. Minha mochila estava em outra cama porque haviam me trocado de quarto e o alívio foi enorme ao encontrá-la.  

          Esses pequenos incômodos são comuns quando se está pagando muito barato e dividindo quarto com outras pessoas. Eles podem ser amenizados quando se pesquisa muito sobre o lugar antes de fazer a reserva. Eu costumo ler bastante comentários das pessoas que já ficaram lá antes. Mas imprevistos acontecem e mesmo assim eu ainda acho que ficar em hostel é a melhor opção.

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