Paralimpíadas Rio 2016 - voluntariado e aprendizado

 

               Ser voluntária nas paralimpíadas do Rio de Janeiro e assistir aos jogos foi uma experiência completamente diferente das olimpíadas. Os esportes são basicamente bem parecidos, a estrutura do evento também não muda em nada, o que fez realmente diferença foi o público. Com ingressos bem mais baratos e muito menos turistas, as paralimpíadas puderam ser acompanhadas pelos cariocas em toda a sua diversidade.

                 Eu não me lembro de nunca já ter assistido pela televisão alguma paralimpíada. Que eu saiba, esses eventos nem são completamente transmitidos e muito menos divulgados. Mas já no primeiro jogo que eu assisti, percebi que isso não faz sentido nenhum, pois a competição é exatamente igual, a não ser por contar com pessoas com algum tipo de deficiência. Os dois jogos não deveriam nem ser separados. Eu entendo que por questões logísticas faz muito sentido um acontecer após o outro, utilizando as mesmas estruturas. Mas é desrespeitoso com os atletas deficientes priva-los de toda a atenção e euforia que envolve os jogos olímpicos. Não deveria haver essa discriminação em um evento que promove a inclusão.

               

 

                Eu torci pelo Brasil nas olimpíadas e paralimpíadas, eu acompanhei momentos de superação, me emocionei, me envolvi com a competitividade e pude constatar o poder do esporte na vida das pessoas. Alguns atletas tiveram uma vida boa, treinaram pesado e conquistaram seus objetivos. Outros saíram da miséria e através de seu esforço puderam dar uma vida melhor para toda a família. Alguns sofreram acidentes de trânsito e após ver seu corpo transformado encontraram no esporte uma forma de se reerguer. Todas são histórias de luta e todas devem ser acompanhadas com o mesmo prestígio.  Com a vantagem de que nos jogos paralímpicos o Brasil vai muito bem e a chance de acompanhar um pódio brasileiro é muito maior. 

                O trabalho dos voluntários nos jogos paralímpicos foi bem parecido com o dos jogos olímpicos. A estrutura era exatamente igual, escalas, trabalho, alimentação e uniformes. Mantivemos as mesmas roupas, acrescidas por camisetas e boné com o símbolo paralímpico. Eu trabalhei no basquete em cadeira de rodas, no serviço de informações aos atletas. Basicamente eu fornecia a eles qualquer informação que solicitassem, sobre treinos e jogos futuros e resultados anteriores. Ficávamos em uma mesa no lounge dos atletas, onde eles esperavam antes e depois dos jogos. Eu convivi bastante com os jogadores, que quebraram completamente todos os meus preconceitos. Nas paralimpíadas não existe espaço para ter dó, deficiência não é nenhuma tristeza, todas aquelas pessoas estão vivendo normalmente, com algumas limitações específicas, como qualquer um tem as suas.

                Mais uma vez, a relação com os outros voluntários foi excelente. Apesar de fazermos um trabalho sério e importante, o ambiente era descontraído e divertido. Tinha gente de todas as idades e muitos estrangeiros. Entre os voluntários do basquete em cadeira de rodas, nos revezamos para todos entrarem pelo menos uma vez em quadra levando as bandeiras dos times. Era um momento super importante, estávamos lá representando a pátria deles enquanto ouviam seu hino. Eu me senti muito honrada por poder fazer isso e fiquei bem emocionada na hora.

               

 

 

 

                Com os ingressos bem mais baratos e menos concorridos, tive a oportunidade de ir à cerimônia de abertura. Foi simplesmente maravilhoso. Eu nunca me imaginei presenciando um evento desses e fiquei muito feliz. O hino nacional tocado pelo maestro João Carlos Martins enquanto flores se abriam formando a bandeira do Brasil foi o ponto alto para mim. A cerimônia foi muito bem pensada para oferecer belos visuais a quem estava na arquibancada, tudo lindamente coreografado por centenas de voluntários. Eu tive a honra de assistir a esse espetáculo junto com atletas do mundo inteiro, contemplando e me emocionando junto com eles. Outro momento marcante e muito simbólico foi a chegada da tocha olímpica, que eu já havia acompanhado em alguns trechos de sua trajetória por São Paulo e Rio de Janeiro. A parte final do revezamento contou com a queda de uma das atletas, que se levantou e continuou ajudada por todo o público presente. Por fim a pira foi acendida, marcando o início dos jogos. 

                As paralimpíadas do Brasil bateram recordes de público, pois os cariocas compareceram em massa. Com os ingressos das olimpíadas caros e disputados, era a oportunidade que eles não tiveram de sentir um gostinho dos jogos. E foi a festa brasileira nas arquibancadas e arenas. Famílias inteiras conhecendo o parque olímpico e podendo vivenciar o que era aquele evento do qual eles haviam sido deixados de fora.

 

                Se as olimpíadas foram os jogos da exclusão, pode-se dizer que as paralimpíadas foram os jogos da inclusão, pois foram a oportunidade de pessoas com as mais diversas deficiências saírem de suas casas e acompanharem um evento em que elas eram destaque. Eu nunca vi tantas pessoas deficientes quanto nas ruas do Rio de Janeiro naqueles dias. Foi uma forma de libertação para todos, que podiam passear pelos jogos e se sentir iguais, sem julgamentos e olhares preconceituosos. Tudo era adaptado para pessoas com dificuldade de locomoção, todos estavam prontos para lidar com as diferenças. Se existe um legado que os jogos deixaram para o Brasil foi essa lição de inclusão e acessibilidade.

 

 

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