Olimpíadas Rio 2016 - Voluntária no maior evento esportivo do mundo

 

                Eu sempre amei esportes e gosto muito de acompanhar grandes eventos esportivos, como copa do mundo e olimpíadas. Desde pequena eu tinha o sonho de participar de algum deles, mas nunca imaginei que seria como voluntária e aqui no Brasil, no Rio de Janeiro. 

                Para ser voluntária desse tipo de evento é necessário se planejar com bastante antecedência, as inscrições costumam começar bem antes e então há todo um percurso de entrevistas e treinos até chegar à aprovação. Atualmente, existem alguns eventos já com inscrições abertas, e outros que temos que manter em vista: 

 

Russia 2017 - Copa das Confederações - 17/06 a 02/07/2017 (http://welcome2018.com/en/volunteers/)

Pyongchang/Coreia do Sul 2018 - Jogos Olímpicos de Inverno - 09 a 25/02/2018 | Paralímpicos 9 a 18/02/2018 (http://vol.pyeongchang2018.com/en)

Rússia 2018 - Copa do Mundo - 14/06 a 15/07/2018 (http://welcome2018.com/en/volunteers/)

Buenos Aires/Argentina 2018 - Jogos Olímpicos de Verão da Juventude - 1 a 12/10/2018 (http://www.buenosaires2018.com/en/)

Cochabamba/Bolívia 2018 - Jogos Sul-Americanos

Lima/Peru 2019 - Jogos Pan-Americanos - 26/07 a 11/08/2019

Lausanne/Suíça 2020 - Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude

Tóquio/Japão 2020 - Jogos Olímpicos de Verão - 24/07 a 09/08/2020 (https://tokyo2020.jp/en/)

Qatar 2021 - Copa das Confederações - Junho/2021

Pequim/China 2022 - Jogos Olímpicos de Inverno - 04 a 20/02/2022

Qatar 2022 - Copa do Mundo - 21/11 a 18/12/2022

 

                As inscrições para a Rio 2016 começaram uns dois anos antes, na época eu não tinha muita certeza de nada, mas resolvi fazer e ver no que ia dar. Quando a copa do mundo de futebol foi aqui no Brasil eu decidi não participar, pois não queria colaborar com uma entidade como a FIFA, que não traz nada de bom para o país. Já as olimpíadas eu enxergo de maneira diferente. Certamente há um lado bem ruim, principalmente para o Rio de Janeiro, com todas as remoções, a exclusão da população de baixa renda, intensificação da violência e corrupção e má gestão dos gastos. Infelizmente, um evento de potencial transformador tão grande, foi construído de maneira a dar vantagens a alguns e desprezar toda uma população que poderia ser impactada positivamente. Por outro lado, eu acredito muito na possibilidade de transformação que o esporte proporciona, na formação de caráter, saúde e ascensão social dos atletas. Um evento desse mexe com as pessoas, mostra a importância de valores como cooperação, dá visibilidade aos nossos atletas e de outros países e ao seu esforço pela superação, traz auto estima para o brasileiro que também pode hospedar e organizar um evento de alto nível e incrível.  

 

                Depois da inscrição o caminho foi longo, uma dinâmica de grupo presencial aqui em São Paulo (quem mora em outros países pode fazer via internet), cursos online e espera pela aprovação. Já em 2016 fiquei sabendo que eu ia realmente participar, mas ainda tinha que aguardar a organização das escalas de trabalho. Foi tudo bem em cima da hora, mas no final deu certo, eu tirei férias de 15 dias e minha escala se encaixou perfeitamente nesse período. Já para encontrar hospedagem não foi nada fácil. O Rio já é uma cidade turística e cara, mas durante o evento estava tudo esgotado ou caríssimo. A solução foi ficar em um alojamento para voluntários.

                Como era período de férias escolares, uma escola próxima ao parque olímpico se disponibilizou a receber alguns voluntários por um valor bem baixo. As pessoas se dividiram entre as salas de aula e a quadra. Eu montei minha barraca na quadra e dormia em colchão inflável. A escola oferecia café da manhã e suas estruturas, banheiros, piscina e televisão. A TV ficava ligada nos jogos olímpicos o dia inteiro, nos reuníamos para assistir algumas decisões emocionantes e o clima de confraternização era muito legal. Sempre tinha gente indo e voltando do parque olímpico, trazendo novidades, contando histórias e mostrando fotos.

                Já o transporte era oferecido de graça aos voluntários. No primeiro dia tínhamos que retirar os uniformes, a credencial e o Riocard, que podíamos usar em todo o transporte público. Durante o evento estava muito fácil se locomover pela cidade, tudo muito organizado. A nova linha de metrô estava funcionando exclusivamente para quem ia às olimpíadas e também havia linhas de ônibus específicas. A cidade ficou muito segura nesse período e não teve nenhum incidente sério. Ver os caras do exército por todos os lados era um sinal de que, infelizmente, essa ilusão de segurança era só reflexo de uma ação opressiva do momento, que separava a população “potencialmente perigosa” das proximidades dos jogos.

                Na minha primeira vez no parque olímpico, fiquei muito impressionada, o lugar era maravilhoso. Ginásios e arenas novos e belíssimos, ligados por ruas largas cheias de torcedores, envolvidos em um clima de alegria. Reconhecidos pelos uniformes, os voluntários estavam em todos os cantos e sua participação era realmente fundamental para os jogos ocorrerem. Andar por ali era rotina e logo eu conheci todos os caminhos e detalhes. Meu trabalho era em outra área, mas eu passava pelo parque todos os dias só para sentir o gostinho de estar lá, vivendo os jogos, mesmo quando não tinha nada para assistir eu ficava apenas passeando ou acompanhando o telão.

 

 

 

                Eu fiquei alocada na área de Deodoro, no basquete feminino. Como já pratiquei o esporte por muitos anos, essa foi uma das minhas escolhas na inscrição, e acabou sendo atendida. Eu queria muito trabalhar em contato direto com os jogos e os atletas, e meu trabalho era bem assim. No primeiro dia, conheci meus colegas e nossa coordenadora. Era um dia de treino para as equipes, e nós aproveitamos para treinar nossas funções também. Tínhamos que cuidar de todos os acessos da quadra, para que só passasse quem estava autorizado. Também orientávamos as equipes na sua chegada e no aquecimento. Enxugávamos a quadra nos intervalos e recolhíamos as bolas no final dos tempos. Eu acompanhei quase todos os jogos de basquete femininos, e quando tudo acabava, nós fazíamos o nosso jogo dos voluntários.

 

                Todos os coordenadores eram contratados, mas vestiam o uniforme como o nosso. Recebemos 3 camisetas, 2 calças, um casaco, um tênis, 3 pares de meia, um boné e uma bolsa, que éramos obrigados a usar para ir trabalhar. Para entrar nos parques e arenas, usávamos nossa credencial, que dava acesso às diferentes áreas. Depois de conhecer os coordenadores, podíamos conversar com eles sobre questões de horários, reorganizar as escalas e as vezes trocar turnos. Todos os dias recebíamos uma refeição, que era servida no refeitório da arena. Comíamos todos os voluntários juntos, era um momento bem gostoso. Tinha bastante opção de comida, inclusive vegetariana, sobremesa, e algumas vezes também sorvete. O lado negativo desse trabalho é que ficava muito distante, deslocado do parque olímpico, mas também foi bom conhecer as arenas e esportes que ficavam lá, como hóquei e rúgbi.

 

 

 

                Qualquer um que vai para as olímpiadas, seja para trabalhar ou assistir, tem que andar muito. Por questões de segurança, todas as distâncias são enormes. A estação mais próxima das arenas ficava fechada e tínhamos que ir caminhando desde a anterior. Havia ônibus específicos para as pessoas com dificuldade de locomoção e dentro do parque olímpico alguns voluntários davam carona para os espectadores cansados em carrinhos de golfe. Quando chegávamos, fazíamos o check-in, para registrar a presença, pegar nosso vale refeição e ganhar brindes, como óculos de sol, mochila e pins. Os pins são uma febre dos jogos olímpicos, cada delegação faz o seu personalizado e leva para distribuir. Os voluntários ficam loucos para ganhar vários e pendurar nas alças da credencial. A grande maioria dos voluntários que conheci era brasileira e carioca, mas havia vários estrangeiros também.

                Quando eu andava com o meu uniforme, não importa onde estivesse, mesmo longe das instalações olímpicas, as pessoas vinham sempre me fazer perguntas. O voluntário está pronto para ajudar e as pessoas nos enxergavam com confiança e respeito. Eu procurava estar sempre muito bem informada, para responder a maioria das dúvidas, mesmo que não fosse da minha área. Cada um de nós era importante para ajudar as pessoas a terem as melhores experiências possíveis. Aqui no Brasil, como a maioria das pessoas só fala português, os gringos tinham muita dificuldade para se comunicar e ficavam aliviados ao saber que eu falava inglês e espanhol. Foi uma ótima oportunidade para treinar os idiomas. 

                A minha credencial me dava acesso ao parque olímpico e uma vez lá dentro eu ia até as arenas e perguntava se podia entrar para assistir algum esporte. Muitas vezes me deixavam, também comprei e ganhei alguns ingressos, assim pude conhecer diversas instalações e assistir muitas competições diferentes. Acompanhei algumas finais, pódios e pude ouvir o hino nacional brasileiro. Estar dentro dos jogos é muito diferente de acompanhar pela televisão, eu não ficava sabendo todos os detalhes das principais competições, dos atletas mais famosos e do quadro de medalhas. Mas eu tinha a minha própria visão dos jogos, eu acompanhava um jogo que foi super disputado e teve um resultado inesperado, um atleta que se machucou e depois a sua recuperação, o envolvimento do espectador brasileiro e sua torcida sempre pelo time mais fraco, cada evento único e momento marcante que eu fico muito feliz por ter vivido.

                Eu realmente vivi a olimpíada, esse evento tão importante para o qual pessoas do mundo inteiro se preparam por anos. Eu fiquei muito emocionada e orgulhosa por ter participado e principalmente por ter sido aqui e os brasileiros terem dado um show. Gostei tanto que voltei depois para as Paralimpíadas.

 

 

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